APCEP - Associação Portuguesa para a Cultura e Educação Permanente
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A pandemia criou as desigualdades ou revelou as existentes?
 
 
Homogeneidade cultural e insucesso
Aprendemos com a Sociologia da Educação que a escola tem tido, historicamente, como um dos seus objetivos principais, desenvolver a identidade nacional e, por essa razão, todas as crianças deveriam ter acesso à mesma cultura e falar a mesma língua. A escola foi-se organizando para o conseguir, procurando, também em Portugal, que as crianças, reproduzam o que lhes é ensinado nas aulas, num português escorreito!
E as crianças originárias de culturas diferentes? Estas estarão, nesse contexto, forçosamente em desigualdade, à entrada para a escola. Por isso, por exemplo, as crianças de etnia cigana e as originárias de famílias migrantes, têm maior insucesso escolar do que as outras. De facto, a dificuldade em aprender é forçosamente maior entre elas, desde logo, porque o modelo de aprendizagem proposto não é o da sua cultura. O mesmo acontece com as crianças de meio popular, cujas famílias não tenham sido “formatadas” pela cultura escolar.
Só em 1975 conseguimos o acesso de todas as crianças à escola e sabemos, pelo que também se passou noutros países da Europa, que a cultura escolar demorou várias gerações a instalar-se no meio familiar. Estudos realizados há mais de 30 anos demonstraram que eram os filhos dos professores e, sobretudo os filhos dos professores do 1º ciclo do Ensino Básico, quem tinha mais sucesso escolar e mais facilidade de entrar na Universidade.

Reprodução da estrutura de classes
Assim, com um modelo construído ao longo dos anos, a escola, acaba reproduzindo e mesmo acentuando a estrutura de classes existente. Tal não decorre, evidentemente, de dificuldades decorrentes de aspetos étnicos, mas é, sim, devido ao facto destas crianças virem de meios de baixas qualificações escolares: sobretudo, não interiorizaram, no seio da família, o modelo escolar de funcionamento, onde, por exemplo, o processo de avaliação pode ser mais importante do que o próprio processo de aprendizagem. Sabe-se que muitas crianças (com sucesso ou insucesso escolar) entram no 2º ciclo sem terem adquirido a competência literacia (a que permite extrair o sentido de um texto escrito necessário ao seu quotidiano) e, por essa razão, não conseguem estudar, não conseguem responder aos testes, por exemplo, e apesar de todos os professores se queixarem disso, a escola não parece ter mecanismos para resolver o problema de ensinar estas crianças a ler. Elas vão avançando ou reprovando sem adquirirem as competências necessárias, desmotivadas, frustradas, com vontade de abandonar a escola e ir trabalhar para poderem provar a si próprias do que são capazes. A própria escola lhes inculca a “certeza” de que não “dão para a escola” (como dizem as famílias) e as vai empurrando para fora. Boas alunas no Ensino Superior, que seguiram a via alternativa da Educação de Adultos, emocionaram-se ao se aperceberem o que a Sociologia lhes “revelava”, o que elas próprias tinham sentido no sistema escolar.

Empurrar para os pais
A escola acusa os pais por não corresponderem ao modelo escolar de “acompanhar os filhos”, procurando remover a acusação de poder ser ela a criar o insucesso das crianças. Mas como poderão os pais inserir-se nesse modelo se, eles próprios, não tiveram acesso ao saber que possuem através da escola, se não a frequentaram ou se a abandonaram já vítimas do mesmo problema? Sabemos hoje que sofrem e que muitas vezes, por amor aos filhos, desistem procurando outras saídas para as suas crianças, hoje, infelizmente difíceis de encontrar sem passar pelo “sistema”. No entanto, quando muitos destes pais tiveram acesso à educação, realizando uma formação no quadro do sistema das Novas Oportunidades, foram capazes de mudar de atitude, compreendendo as dificuldades dos seus filhos e procurando ajuda para a sua inserção escolar. Portanto, parece haver uma resposta.

A Literacia consolidada
Se buscarmos o que essas crianças não aprendem à entrada para escola, verificamos que se torna difícil, para elas, a aprendizagem da leitura, a aquisição da competência literacia. Estas crianças não vivem num meio leitor, pois as suas famílias não utilizam a leitura e a escrita no seu quotidiano. Por essa razão, não sabem como a usar, com que funções – para que serve? – como se faz para ler, o prazer que da leitura se tira. Sabemos, em contrapartida, que os pais letrados se preocupam com esta aprendizagem: desde muito cedo compram livros para as crianças e, mesmo antes de saberem falar, já elas “aprendem a funcionar” com os livros, nalguns casos. E é esta cultura que seria fundamental desenvolver. Os estudos de Emília Ferreiro e Ana Teberosky – e em Portugal as equipas de Margarida Alves Martins - mostraram a importância do desenvolvimento da literacia emergente antes da entrada para o 1º Ciclo do EB. Também o pai e a mãe têm aqui tanta importância que se trabalha hoje no incremento da literacia familiar (Lurdes Mata) e verificou-se o seu desenvolvimento em adultos que frequentaram a Educação de Adultos no sistema das Novas Oportunidades.

A falta de diagnóstico e de prevenção
Por aqui poderemos perceber como a escola avança no seu caminho de certificação, deixando para trás as crianças oriundas de meios de baixas qualificações escolares. Parece que um trabalho com as famílias, envolvendo os adultos na sua própria formação, poderia ser a via para colmatar esta falha do sistema educativo. Educação de Adultos e sucesso educativo das crianças e dos jovens poderiam (deveriam) avançar a par. O envolvimento das comunidades locais nestas aprendizagens poderia ser uma porta de saída para o problema. No entanto, não existe em Portugal, neste momento, oficialmente, reconhecimento e apoio para as atividades educativas que as comunidades desenvolvem de alfabetização e da literacia de adultos e de crianças de meios de baixas qualificações escolares, como existiu no pós 25 de abril relativamente à educação popular e até na altura da criação das IPSS.

Telescola, sim, ou não?
Como poderemos verificar não se trata da utilização de determinado meio, alternativo à escola. Trata-se de incremento da educação de adultos, inserida nas suas comunidades, com o apoio dos atores locais como conhecemos tão bons exemplos no país, apesar de não terem qualquer apoio ou reconhecimento.
Conhecemos mesmo estudos que mostram como a utilização de audiovisuais parece favorecer algumas aprendizagens por o discurso transmissivo deixar de ser centrado na linguagem do professor – de outro meio social – sendo mais fácil à criança perceber através das imagens do quotidiano.

Alternativas
Mas depende do que se ensina. Talvez - se se quiser aproveitar para ser mesmo diferente, oferecendo possibilidades a estas crianças e respetivas famílias - fosse de mudar o paradigma: apoiar a literacia emergente nas comunidades, inserida ainda em projetos de desenvolvimento da literacia dos adultos, enriquecendo, deste modo, a literacia familiar. Poderia então recorrer-se à telescola para informação de conteúdos precisos como foi, tão bem feito, no sistema da Telescola que outrora conhecemos no passado.
Seria necessário despender bastantes fundos na formação de todos os que trabalham na educação desta população nas comunidades e na escola. Nos últimos 30 anos a investigação (nomeadamante investigação-ação – sabemos como se faz!) nestes domínios foi significativa e terá de forçosamente chegar, a todos os que querem mesmo resolver este tão sério problema que a pandemia agora, revelou.  

Lucília Salgado
APCEP – Associação Portuguesa para a Cultura e Educação Permanante
Projeto: Literacia para a Democracia
 
 
 



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